O que deu errado na Mediação do Flamengo?

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O intuito desse breve texto é de provocar em nós reflexões acerca de nossa postura enquanto Mediadores e também enquanto atores (partes), pois estamos todos sujeitos a situações de negociação. Dificilmente saberemos o que teria dado certo ou errado naquela Mediação afinal não fomos atuantes na mesa, mas podemos fazer uma análise baseada no que observamos no dia a dia das mediações em Tribunais.

A pré mediação que durou cerca de quatro horas ocorreu no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, conduzida pelo desembargador Cesar Cury, do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), e reuniu familiares dos dez adolescentes que morreram e dos três que se feriram no incêndio, também participaram representantes do Ministério Público (MP), da Defensoria Pública e do Ministério Público do Trabalho (MPT), além dos advogados de cada família. A mediação foi solicitada pelo Flamengo após algumas tentativas frustadas de composição com as famílias.

Embora o time tenha solicitado a Mediação, participantes relataram que o vice-presidente jurídico do Flamengo, Rodrigo Dunshee, deixou a reunião após 15 minutos (fonte: G1), que confirmou sua rápida passagem pela reunião esclarecendo que “O clube contratou um advogado para representar, não era para eu ter ido. Mas eu entendi que tinha que ter alguém da diretoria do Flamengo presente. Então fui, fiz o meu discurso: “Eu vim aqui prestar solidariedade e recepcionar vocês, pois foram convidados por nós. Mas tenho compromissos”… Quanto aos que estão chateados, eu entendo. Mas prestei esclarecimento de forma clara, e ainda estendi um pouco mais (a participação). Depois que acabou essa parte de pré-mediação, eu fui embora. Não sou parte disso. O Landim também não foi porque ele não tem nada a ver com isso. A gente não é parte integrante da mediação. Ele está envolvido por ser presidente do clube, pois é quem vai assinar o cheque, pagar às famílias. Expliquei isso na pré-mediação. A verdade é que o Flamengo tentou fazer o seu melhor, mas querem uma solução para ontem”. 

Na mediação existem algumas barreiras à solução do conflito: em relação à estratégia – qual a estratégia adotada para conduzir a negociação (competição, colaboração, evasão, concessão, conciliação); reação desvalorizadora – quando a outra parte recusa qualquer proposta apenas por ter sido o outro quem fez; em relação ao representante e representado – quando há desalinhamento de interesses entre aquele que negocia em nome de uma pessoa ou de uma empresa ou organização e aquele que o contratou.

Enquanto Mediadores e partes é importante o planejamento da reunião. O mediador deve planejar sua atuação, o preparo do ambiente, o seu preparo pessoal (equilíbrio emocional e físico) para entrar na reunião e lidar com os problemas de outras pessoas que foram buscar o seu auxílio na resolução de algo tão importante para elas. As partes devem planejar suas negociações, a preparação é o segredo de qualquer negociação bem-sucedida. Enquanto parte você deve questionar suas suposições sobre a negociação; descobrir o que você deseja da negociação e por quê – e o que a outra parte deseja e a razão; desenvolver a criatividade em relação as opções de solução buscando aplicar critérios objetivos a essas opções; avaliar qual a sua melhor alternativa e também a da outra parte; construir a base de uma negociação bem-sucedida, procurando uma aproximação com a outra parte tentando quebrar barreiras no relacionamento.

Analisando a colocação do vice- presidente jurídico é possível que o planejamento prévio, se ocorreu, possivelmente não tenha contemplado o alinhamento de interesses do clube com os seus representantes. É possível que os familiares tenham notado uma certa dissociação do representante que foi à Mediação da própria Pessoa Jurídica. Não é incomum isso ocorrer. Geralmente em Mediações em que há uma parte Pessoa Jurídica ouvimos  “estou aqui apenas como representante da empresa”. Me parece que os representantes não percebem a importância do seu papel de representante da empresa: eles são para a outra parte a personificação da empresa na qual, em outro momento, confiaram e depositaram expectativas, e que agora esperam ser ouvidas e compreendidas, acolhimento, empatia e na maioria das vezes um pedido de desculpas.

Nas entrevistas dos familiares após a mediação nenhum falou sobre valores ou que as negociações não continuaram porque os valores não estavam satisfatórios: “Eles estão brincando com as vidas dos nossos filhos. Queria saber se eles não foram pais, não são pais para entender o que eles estão fazendo com a gente. Para entender a tortura que eles estão fazendo com nós – disse Cristiano, o pai de Christian Esmério, visivelmente emocionado, antes de completar: – Não definimos nada. Não teve adesão, viemos aqui como bobos e palhaços. Estamos desamparados por todos, não nos sentimos acolhidos por ninguém, principalmente pelo Flamengo. Eles não têm respostas para nós, familiares. Eles não sabem de nada.- finalizou.

Mas então o que deu errado nessa Mediação do Flamengo?  O fato de o clube não ter se colocado como pessoa na mesa, mas apenas como empresa “que assina os cheques”?. Ou a Mediação ocorreu muito próximo ao ocorrido, quando os familiares ainda estavam emocionalmente abalados inviabilizando uma racionalização de uma proposta aceitável? Difícil precisar o que deu errado, mas notadamente os familiares gostariam que aquela Pessoa, a qual confiaram a vida de seus filhos, embora Jurídica tivesse sido mais humana durante o processo e os tivessem acolhido, compreendido, sentido ou pelo menos percebido as suas dores! 

Tathyana Gomide

CEO Mediei

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