Conflitos familiares com idosos

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Desde que ingressei no ambiente da Mediação me pego naturalmente praticando a escuta com desconhecidos buscando ampliar perspectivas e vivências diversas ao meu contexto usual. Recentemente em uma conversa casual com uma simpática senhora na pracinha da quadra onde moro, despertou-me para a Mediação Familiar envolvendo direitos dos idosos.
Ao saber que eu trabalhava com Mediação ela relatou que havia participado de uma Mediação com seus filhos para definirem detalhes de seus cuidados e convivências após ela ter sofrido uma queda doméstica e ficado com dificuldades para andar. Ela relata que todos estavam harmônicos e solicitaram o procedimento a pedido de um dos filhos para definirem particularidades do caso e para registrarem tudo legalmente.

Certamente como entusiasta do instituto da Mediação podem imaginar minha curiosidade com todos os detalhes, mas o tempo não foi suficiente. Parti então em uma breve pesquisa para entender melhor a seara dos conflitos intergeracionais e compartilho com vocês algumas considerações.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população brasileira com 65 anos de idade ou mais cresceu 26% entre 2012 e 2018, ao passo que a população de até 13 anos recuou de 6%, mostram dados da pesquisa “Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores 2018”. Envelhecer é fase natural do ciclo da vida e gradualmente exige adaptações e reorganizações familiares. Envelhecer bem pode estar diretamente ligado ao grau de preservação da capacidade funcional e emocional de cada pessoa.
Associado ao processo de envelhecimento populacional observa-se mudanças nos arranjos familiares, na qual a intergeracionalidade surge como uma das características deste processo, em que famílias envelhecem junto com os seus membros, se reorganizando para fazer face às demandas do envelhecimento.
Atualmente, as famílias têm se tornando menores e com um número maior de idosos em sua composição, sendo encontradas, muitas vezes, pessoas de diferentes gerações coabitando o mesmo domicílio, além do que as famílias se deparam com o aumento da prevalência de doenças crônicas e de problemas decorrentes do envelhecimento, com os quais tem que lidar.

Um estudo sobre Dinâmica das relações familiares intergeracionais na ótica de idosos realizado em Jequié na Bahia, entrevistou um grupo de idosos e concluiu que a dinâmica das relações familiares intergeracionais na percepção do idoso pode ser dividida em quatro categorias.
A primeira categoria – relações familiares intergeracionais harmônicas – revelou que para os idosos entrevistados, as relações estabelecidas com os membros familiares são harmônicas, permeadas pelo diálogo e por uma profunda ligação afetiva.
A segunda categoria – relações familiares intergeracionais conflituosas – constatou que, para alguns idosos, os conflitos são decorrentes de questões relacionais com os filhos e os netos, devido às diferenças de valores sociais e culturais entre as gerações. Percebe-se que há dificuldade enfrentada pelos jovens em aceitarem a divergência de valores como algo natural decorrente das profundas alterações sociais e culturais nas últimas décadas, o que faz com que os idosos sejam rotulados de “ultrapassados”, ao olhar dos seus filhos e netos, reflexo da imagem negativa do idoso presente na sociedade, impregnada de estereótipos que estão interiorizados na memória coletiva.
Nas relações familiares relativas ao cuidado com o idoso (relações familiares permeadas pelo cuidado intergeracional com o idoso) verifica-se questões relativas a responsabilidade quanto aos cuidados destinados a esse contingente, pois, em geral, as doenças que acometem os idosos são crônicas e múltiplas, exigindo cuidados constantes, como agendar consultas e exames, dar remédios e controlar seus horários de administração.
Segundo o estudo, a quarta categoria refere-se a responsabilidade de cuidado do idoso com seus netos – relações intergeracionais permeadas pelo cuidado dos idosos para com seus netos. As relações que se estabelecem entre avós e netos resultam de um contato envolto em cuidado, preocupação, atenção, amor e partilha, daí que esta relação seja parte integrante e marcante no crescimento dos netos e no amadurecimento dos avós.
A expressiva presença dos avós no espaço doméstico como cuidadores de netos vem sendo destacada, sem desconsiderar, portanto, outras funções que eles podem também assumir como, por exemplo, adotando um papel estabilizador na relação entre pais e filhos, especialmente em momentos de stress derivado de dificuldades econômicas, ou assumindo a responsabilidade pela educação dos netos quando os pais não podem assumí-la.
A longevidade traz a possibilidade de um maior tempo de convivência familiar intergeracional, o que implica em mudanças no conceito de família e na configuração familiar, trazendo consigo desafios. O conflito envolvendo o idoso decorre principalmente em casos em que há dependência de uma terceira pessoa seja para cuidados diretos ou indiretos.
Neste cenário, inúmeros são os conflitos que podem surgir envolvendo questões de moradia, cuidados físicos e de saúde, manutenção financeira, tratamentos, testamentos, questões relativas a idosos que são institucionalizados em casas de repouso ou de cuidados, como por exemplo, conflitos relativos ao idoso e a instituição cuidadora ou os próprios cuidadores, conflitos entre idosos dentro da instituição cuidadora.
Renata Fonkert relata no texto Mediação Familiar com Idosos, 2 experiências de Mediação familiar envolvendo idosos. No primeiro caso tratava-se de três irmãos com o pai internado há algum tempo em CTI em que apenas um dos filhos gostaria de seguir com procedimentos de prorrogação da vida do pai. Na ocasião os irmãos realizaram reunião com a equipe médica do hospital e, após as reuniões fizeram acordo acolhendo as necessidades de todos. No outro caso Renata descreve conflito envolvendo 9 irmãos, filhos de uma mãe com 90 anos, que vivia acamada após dois AVCs (acidente vascular cerebral) envolvendo diversos temas: divergência entre os irmãos relacionada com a moradia da mãe; parte queria que ela voltasse para sua casa em Macaé e, a outra parte, queria alugar um apartamento para que ela ficasse no Rio, em função dos tratamentos de saúde necessários. Existia também o tema de que a irmã com maior disponibilidade de tempo para os cuidados com a mãe residia no Rio, então como se organizarem em função das possibilidades de tempo de todos. E o terceiro item polêmico envolvia a questão financeira, já que uma parte dos irmãos não poderia arcar com os gastos da moradia da mãe no Rio.
Durante 6 reuniões de Mediação os irmãos puderam acordar com a moradia da mãe no Rio, e que a manutenção financeira desta nova realidade seria dividida entre todos, mas respeitando-se a possibilidade de cada um. Também fizeram um sistema de rodízio e visitas de forma a que todos tivessem contato com a mãe. A irmã com maior disponibilidade de tempo se responsabilizou com a coordenação do dia-a-dia da casa e dos cuidados com a mãe. E ainda decidiram pelo aluguel da casa de Macaé para auxiliar com as despesas no Rio de Janeiro.
Nos dois casos a Mediação mostrou-se instrumento adequado para a solução dos conflitos em questão e o restauro da comunicação e relações entre os irmãos.
A Mediação pode ocorrer durante o curso de um processo judicial ou de forma privada. Pode incluir ou não o idoso, dependendo do tema e de suas condições de saúde e mentais.
De toda forma a Mediação demonstra ser excelente ferramenta aplicável em casos envolvendo os cuidados com os idosos trazendo ambiente seguro de diálogo e possibilidade de resolução dos conflitos facilitando a comunicação proporcionando melhor compreensão das diferenças intergeracionais refletindo em significativa evolução da relação familiar.

Tathyana Gomide

Fontes:
População idosa no Brasil
A Mediação, o idoso e os conflitos no âmbito familiar.
Mediação Familiar com idosos
Dinâmica das relações familiares intergeracionais na ótica de idosos

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